Monumento Oliveira Silveira

Localização: Praça da Alfândega, Porto Alegre - RS. Autoria: Marcos Porto. Homenageado: Oliveira Silveira (1941-2009) – Poeta, professor, pesquisador, ativista do movimento negro e idealizador do 20 de Novembro - Dia Nacional da Consciência Negra.

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Objetivo

Construir um monumento tríptico que funcione como um memorial narrativo de grande impacto visual e significado, contando a trajetória em três atos da influência de Oliveira Silveira na formação da identidade, consciência e celebração da história negra brasileira, passando por sua luta e ação política, até chegar em seu legado cultural e esperança para o futuro. A obra planejada para ser um Quilombo Sociocultural visa educar, inspirar e servir como local de reflexão e condução do espectador por uma jornada imersiva pela mensagem de Oliveira Silveira traduzida em símbolos. A obra é concebida para ser inclusiva, interativa e resistente, integrando-se ao espaço urbano.

Luta e Atuação Política

Evidenciar seu papel como articulador do movimento negro, fundador do Grupo Palmares e idealizador do 20 de Novembro como Dia da Consciência Negra, ressaltando a força de sua presença poética e política.

Legado e Futuro

Celebrar seu impacto duradouro na cultura brasileira, inspirando novas gerações a darem continuidade à luta por equidade e valorização da história afro-brasileira. Promover experiências múltiplas: Educar por meio de símbolos integrados à obra, tornando-a uma ferramenta pedagógica ao ar livre. - Inspirar por sua dimensão estética e emocional, convidando à reflexão sobre resistência, ancestralidade e futuro. - Servir como ponto de convergência para celebrações, atos culturais e manifestações em prol da igualdade racial, consolidando-se como um marco de reparação simbólica no espaço público. A obra, portanto, não é apenas um tributo, mas um dispositivo de diálogo permanente com a sociedade, um espaço cerimonial concreto afirmando a relevância de Oliveira Silveira e da consciência negra na construção do Brasil.

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A Linguagem como Arma e como Ornamento

Fundamentos Geométricos

A estrutura central utiliza formas geométricas primárias - retângulos - que são elementos fundamentais no design devido à sua simplicidade e estabilidade visual. A escolha por três elementos cria um número ímpar, que é psicologicamente mais dinâmico e interessante.

Progressão Visual e Ritmo

O arranjo apresenta uma progressão decrescente na altura dos retângulos (da esquerda para a direita), criando um ritmo visual que guia o olhar de forma natural. Essa sequência estabelece uma hierarquia visual clara e um movimento direcional controlado na disposição dos símbolos. O conjunto central quebra parcialmente a simetria, criando tensão visual dinâmica simulando páginas de livros.

Sistema Arquitetônico funcional

Uma estrutura cerimonial ou contemplativa com bancos tradicionais africanos nas extremidades.

Base Unificadora

A plataforma horizontal na base serve como elemento unificador que: - Estabelece uma linha de base comum - Cria estabilidade visual Sugere uma relação estrutural entre os elementos - Adiciona uma dimensão arquitetônica à composição Esta configuração é eficaz para representar conceitos como crescimento, hierarquia, progressão ou estruturas organizacionais de forma visualmente clara e matematicamente harmoniosa.

Banco do Rei

Integrado ao tríptico e dispostos nas extremidades laterais estão dois gwa ashanti (bancos cerimoniais) que têm função tanto simbólica quanto funcional. Geometria dos Bancos Tradicionais Tipologia estrutural: Formato: bancos Estrutura: duas placas contendo o símbolo adinkra “Aban” cortadas a laser + tampo curvo Simetria bilateral espelhada nas extremidades da plataforma.

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Sistema Compositivo Integrado

Hierarquia espacial: Plataforma base: espaço sagrado/cerimonial Painéis centrais: elementos de foco ritual/comemorativo Bancos laterais: posições de testemunhas ou anciãos Iluminação cenográfica

Arquitetura Como Síntese Cultural

A composição arquitetônica A estrutura situa-se na intersecção de múltiplas tradições arquitetônicas contemporâneas: o minimalismo memorial, o neo-brutalismo (monumentalidade geométrica), a arquitetura cerimonial moderna e o design de paisagem contemplativa. Simultaneamente, mantém conexões profundas com espaços de assembleia, arquitetura sacra tradicional reinterpretados de forma contemporânea. Esta hibridização tipológica exemplifica uma tendência crucial na arquitetura do século XXI: a capacidade de integrar precisão matemática, funcionalidade moderna, sensibilidade estética internacional e especificidade cultural local em sínteses coerentes. A estrutura não é nem puramente "africana" nem puramente "universal", mas constrói uma terceira categoria - arquitetura culturalmente enraizada e simultaneamente cosmopolita. Os três retângulos em progressão decrescente constituem um "vocabulário formal mínimo" Sua força reside não na imposição de significados únicos, mas na criação de estruturas formais abertas a múltiplas interpretações culturalmente informadas característica essencial de uma arquitetura verdadeiramente inclusiva e cosmopolita.

Descrição Técnica e de Conteúdo

Elementos compositivos Dimensões da Área de Intervenção: 21,0 m² - Plataforma base de concreto Medidas: 7,0 m x 3,0 m x 0,20 m - Painéis Conjunto composto por três painéis em aço corten, executados com desenhos personalizados mediante tecnologia de corte a laser de alta precisão. Medidas: Painel 01 - 2,80 m x 1,0 m x 0,005 m Painel 02 - 2,55 m x 1,0 m x 0,005 m Painel 03 - 2,30 m x 1,0 m x 0,005 m - Bancos Ashanti Conjunto composto por dois bancos Ashanti em aço corten contendo símbolos Adinkra cortados a laser de alta precisão. Medidas: 0,70 m x 0,60 m x 0,40 m

Elementos Visuais e Simbólicosl

Adinkra são símbolos visuais que representam conceitos, provérbios e aforismos. Originaram-se do povo Akan de Gana. Os Adinkra são filosofia visualizada. A obra de Oliveira Silveira é filosofia verbalizada e poetizada. Duas manifestações de uma mesma força. O paralelo entre Oliveira Silveira e os símbolos Adinkra revela que, embora separados pelo oceano e por expressões culturais diferentes (poesia escrita e simbolismo gráfico), ambos emanam da mesma fonte: a necessidade imperiosa de um povo preservar e transmitir sua humanidade, sua história e sua filosofia em face à tentativa de aniquilação.

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Banco do Rei

Integrado ao tríptico e dispostos nas extremidades laterais estão dois gwa ashanti (bancos cerimoniais) que têm função tanto simbólica quanto funcional. Geometria dos Bancos Tradicionais Tipologia estrutural: Formato: bancos Estrutura: duas placas contendo o símbolo adinkra “Aban” cortadas a laser + tampo curvo Simetria bilateral espelhada nas extremidades da plataforma.

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Descrição dos elementos simbólicos utilizados na obra e seus significados

Sankofa

Símbolo Adinkra originário do povo Akan de Gana. Seu nome vem da expressão Twi, "Sankɔfa!", cujo significado literal é "Volte e pegue!", um comando para prestar a devida atenção às lições e práticas do passado e utilizá-las para informar o presente e o futuro, representada por uma ave mítica com a cabeça voltada para trás, segurando um ovo no bico, enquanto parece se mover para a frente. Isso retrata a importância de aprender lições do passado para guiar o presente e o futuro. Sankofa representa humildade, reflexão e respeito pela ancestralidade, ensinando-nos que o progresso vem por meio da compreensão e da honra à história. Servindo como um símbolo de profundo significado espiritual para muitos afro-americanos e outros africanos na diáspora que desejam se conectar com suas raízes.


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Mapa da África

O mapa da África carrega profundo significado simbólico, representando as raízes e a identidade ancestral do povo negro brasileiro, transcendendo a dimensão geográfica para se tornar um símbolo de origem, resistência e reconexão cultural. Representa a terra dos ancestrais. Também representa a universalidade da experiência negra e a conexão entre os povos africanos e seus descendentes espalhados pelo mundo, reforçando a mensagem de unidade e pertencimento que permeia a obra do poeta da consciência negra brasileira.


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Abe Dua

O símbolo Abe Dua é representado por uma palmeira. Abe Dua é um lembrete de que, assim como a palmeira, que se ergue em um lugar e tem tudo o que precisa, ela representa resiliência e sustentabilidade. Sua utilidade para muitas coisas reflete nosso próprio potencial como seres humanos e representa o Coletivo Palmares fundado em 20 de julho de 1971 por Oliveira Silveira, Antônio Carlos Côrtes, Ilmo da Silva, Vilmar Nunes, Helena Vitória Machado, Anita Abad, Antônia Carolino e Marli Carolino.


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Vinte de Novembro

Exaltação do 20 de Novembro como Dia da Consciência Negra. O 20 de novembro honra Zumbi dos Palmares e todos aqueles que resistiram, mas também nos desafia a construir um presente onde a igualdade racial seja realidade concreta, não apenas ideal distante.


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Livro aberto

O livro aberto surge como metáfora da resistência e da revelação. As páginas abertas representam não apenas o conhecimento liberto, mas a palavra que se recusa ao silêncio. Em seus versos, o livro aberto simboliza a memória ancestral que se preserva e se transmite, rompendo com o apagamento histórico. É também a consciência negra que se manifesta publicamente, transformando a literatura em território de afirmação identitária e luta política. O símbolo condensa assim a dupla dimensão da obra do poeta: o livro como arquivo da negritude e como arma de combate ao racismo.


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BOA ME NA ME MMOA WO

Esse símbolo se refere à cooperação mútua e à interdependência. O símbolo adinkra "Boa me na me mmoa wo" (literalmente "Ajude-me e eu te ajudarei") representa a solidariedade comunitária na filosofia akan de Gana. Este conceito de reciprocidade e apoio coletivo ecoa na obra de Oliveira Silveira em sua poética baseada na união, resistência coletiva e fortalecimento da identidade negra. Ambos - símbolo e poeta - convergem na ideia de que a transformação social acontece através da solidariedade e do compromisso recíproco com a libertação coletiva.


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Afro brasileiros

A figura dos afro-brasileiros na obra de Oliveira Silveira emerge como símbolo de resistência e reafirmação identitária (Encontrei minhas origens). Em seu trabalho poético, luta pela defesa da memória e da dignidade do povo negro ao combater estereótipos racistas, transformando o símbolo do afro-brasileiro de objeto de folclorização em sujeito histórico consciente. Assim, Silveira reconstrói simbolicamente a figura afro-brasileira como protagonista de sua própria libertação, não mais vítima passiva, mas agente transformador da realidade histórica e social.


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Nteasee

O símbolo Nteasee representa o trabalho em equipe e a mente aberta. O significado do símbolo é que a paz e a harmonia só podem ser alcançadas por meio da colaboração e da compreensão mútua.


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Máscara Africana

A máscara criada para compor o monumento representa um símbolo profundo de ancestralidade, espiritualidade e identidade cultural funcionando como ponte entre o mundo dos vivos e dos mortos nas tradições africanas, resistência e reconexão com as raízes afro-brasileiras.


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Lança/ Pena/ Punho erguido

“Uma lança caneta-tinteiro escreveu liberdade no céu”. Esse conjunto composto pela pena, o punho da solidariedade também conhecido como "Black Power Salute" (saudação do Poder Negro) ergue-se a partir da ação da pena que escreve o 20 de novembro e a lança africana, símbolo ancestral de resistência e identidade. A lança representa um instrumento poético de combate ao apagamento histórico e cultural dos povos africanos.


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16 Búzios

Nas palmas sagradas da ancestralidade, dezesseis búzios sussurram segredos do tempo, Merindilogun, oráculo dos ventos yorubás, onde o destino dança em conchas marfim. Merindilogun é um sistema divinatório iorubá que usa 16 búzios para conectar o mundo espiritual ao físico. Originário das tradições afro-brasileiras do Batuque, este oráculo é evocado na lírica de Oliveira Silveira como uma forma de comunicação sagrada abençoada pelos orixás.


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Nkyinkyim

Símbolo Adinkra que representa a versatilidade, dinamismo e a capacidade de adaptação diante das mudanças da vida. Sua forma simboliza as reviravoltas do destino e a resiliência necessária para navegar pelos desafios. É um símbolo da natureza tortuosa da jornada da vida e, também, da resistência, versatilidade e dinamismo. Como o Nkyinkyim, a obra de Silveira representa movimento perpétuo, a busca incessante por sabedoria em encontrar força nas curvas e reviravoltas da experiência negra no Brasil. Ambos simbolizam que a verdadeira força reside na capacidade de se transformar sem perder a essência.


Nkyinkyim

Gwa assento real

Bancos cerimoniais (Adamu dwa) funcionam no sistema político Asante como símbolos de autoridade e legitimidade. Bancos com símbolos geométricos (Aban) no centro foram projetados para alcançar um equilíbrio horizontal ou simétrico. É um símbolo de solidariedade usado em cerimônias de gala ou ritos relacionados ao culto ancestral. Além disso, incorporam mensagens proverbiais e simbólicas, comunicando aspectos das crenças, história, valores sociais e normas culturais da comunidade. Um símbolo de autoridade intelectual e preservação da memória cultural afro-brasileira.


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