LANCEIROETERNO
FERRO PRATA ALFORRIA
Edital SEDAC nº 16/2025 - Palácio Contemporâneo
Ferro Fundido como Memória Permanente

Há silêncios que pesam como ferro. Há ausências que ecoam nos salões de mármore. Há histórias que, não contadas, deixam vazios nos corredores do poder.

Os Lanceiros Negros empunharam lanças de ferro. Lutaram pela liberdade prometida. Foram traídos em Porongos. Seus corpos tombaram, mas sua resistência permanece, agora eternizada no mesmo metal de suas armas. As Quitandeiras ergueram economias com bacias de ferro, panelas de ferro, força de ferro. Sustentaram famílias, compraram alforrias, construíram redes de solidariedade. Sua autonomia ecoa nas praças onde comerciaram, agora materializada no metal de seu trabalho.

Este projeto propõe reparação, reconhecimento e justiça simbólica. Ferro fundido: material de permanência. Matéria que resiste ao tempo, como resistiram estes corpos negros. Matéria que carrega peso, como carregam estas memórias. Matéria que reflete luz, como refletirão estas histórias nos vestíbulos do poder. Nos espaços onde antes só brancos eram representados, agora Lanceiros e Quitandeiras montam guarda. Nos corredores por onde circula a decisão política, agora circula a presença negra. Nos salões onde se escreve o futuro, agora se repara o passado.

Lanceiro Eterno

LANCEIROS NEGROS: RESISTÊNCIA ETERNIZADA

Em 1844, centenas de homens negros foram desarmados por ordem de seus próprios comandantes. Tornaram-se alvos fáceis. O massacre de Porongos não foi acidente de guerra: foi eliminação sistemática daqueles que ousaram lutar pela própria liberdade. Esta escultura não os retrata derrotados.

O Lanceiro ergue-se de peito aberto, monumental, lança em punho, postura de guarda. Seus pés firmam-se no solo que ajudou a defender. Seu olhar projeta-se para o horizonte – o futuro que lhe foi negado, mas que agora reclamamos em sua memória. O ferro fundido não é escolha arbitrária. É o metal de suas lanças. É a matéria que atravessa séculos sem ceder.

É a permanência que o apagamento histórico tentou negar. Nos vestíbulos do Palácio Piratini, onde circula o poder institucional, o Lanceiro Negro monta guarda. Não mais como soldado traído, mas como guardião da memória que insistimos em preservar. Ferro contra esquecimento. Resistência contra apagamento. Presença contra ausência.

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Quitandeira Alforria

No Largo da Quitanda, atual Praça da Alfândega, mulheres negras construíram impérios com bacias, cestos e tabuleiros sobre a cabeça. Escravizadas, ainda assim empreendedoras. Exploradas, ainda assim autônomas. Invisibilizadas, ainda assim presentes. A Quitandeira que propomos não carrega fardo: carrega dignidade. Não se curva ao peso: ergue-se altiva. Não está a serviço: está em movimento próprio, circulando seu comércio, construindo sua rede, comprando alforrias. Sua cesta – ferro fundido como suas panelas – não é símbolo de servidão.

É instrumento de liberdade. É ferramenta de autonomia econômica. É prova de que, mesmo nas estruturas mais opressoras, mulheres negras encontraram fissuras para exercer poder. O ferro que agora compõe seu corpo escultórico é o mesmo ferro de seus utensílios de trabalho. Material de uso cotidiano elevado a monumento.

Trabalho negro elevado à arte. Presença negra elevada ao centro do poder institucional. No Palácio onde decisões econômicas são tomadas, a Quitandeira lembra: a economia gaúcha foi construída também – talvez sobretudo – por mãos negras femininas. Ferro como ferramenta. Autonomia como conquista. Memória como reparação.

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